quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Quando as Palavras Machucam

Esse post demorou pra "nascer". Foi escrito, apagado, reescrito diversas vezes. Até que tomei coragem e pensei: vou escrever sim.

Quando eu procurei a Justiça Federal para dar entrada no pedido judicial pra conseguirmos um leite especial para a Alice, tive que responder um questionário bem detalhado. Um desses detalhes era qual doença afinal, Alice tem que justificava o uso do leite. O tal do CID que é uma classificação, cada doença tem um código CID.

Então uma moça, jovem, bonita, provavelmente estudante de Direito, me solta um sonoro, alto e muito audível:
"- Sua filha é RETARDADA MENTAL?" (Eu JURO que ela falou assim, usando exatamente essas palavras).

Eu muito calmamente (não me perguntem como) e educadamente lhe respondi:

"- Mesmo que fosse, hoje em dia não se usa mais essa palavra. E não, ela não é."

Eu estava sozinha nessa hora, apenas com essa moça, um outro rapaz e o chefe deles, totalmente alheio aquela situação, estava bem concentrado em outra atividade. Aliás, sozinha não, estava com a Alice no meu colo. Olhei pra ela e tive uma imensa vontade de chorar, mas ao invés disso, abracei ela bem forte e em pensamento me desculpei pelo o que aquela desconhecida havia falado dela. Dei um beijo, ela sorriu pra mim e aquilo bastou. Foi como se ela dissesse pra mim: "-Não se preocupe mamãe, ela não fez por mal e eu nem liguei pra isso que ela falou."

Mas pra mim, foi como levar um soco no estômago. Aqueles poucos segundos demoraram séculos pra passar, como se tivesse aberto um buraco enorme no chão e eu estivesse em queda livre, não sei explicar. Fiquei tonta, enjoada, pesada, uma sensação horrível. E naquele momento sim, eu tive um pouco de pena da minha filha por me dar conta de que talvez seja isso que muitas pessoas vão pensar dela, mesmo que não seja o caso. É assim que talvez algumas pessoas mal informadas vão "defini-la" ao longo de sua vida.

Passado o mal estar, já no caminho de volta pra casa, eu comecei a pensar sobre aquele episódio que talvez não seja a única vez que eu verei acontecer. Sei que a moça não fez ou falou por mal. Sei que talvez isso volte a acontecer, e que as pessoas não falem pra ofender. Mas eu penso como pode as pessoas não terem o mínimo trato ao lidar com uma situação assim.  Palavras machucam, magoam. 

Até os 4 anos de idade, é usado o termo atraso de desenvolvimento. Após isso, se confirmada a deficiência então é classificada como deficiência intelectual. Não que o nome ou a definição vá amenizar o problema. Não que uma palavra vá disfarçar essa deficiência. Não é querer dourar a pílula.  Mas ter esse cuidado com as palavras que se usa para lidar com essas situações, com pessoas que passam por isso, demonstra respeito. Respeito é o mínimo que se espera, nessa ou em qualquer outra situação! É bom e todos merecem.

A cabeça e o coração de mãe vivem em constante turbilhão de emoções, sentimentos, questionamentos, enfim, às vezes fica difícil administrar tudo, entender o que sentimos. Então, não precisamos que nos deixem piores, ou que nos façam sentir mal. Já sentimos! Em algum momento somos pegas por sentimentos não tão bons, por desânimo, por tristeza. Quem dera se tivéssemos um botão para desligar essas emoções negativas, ou que pudéssemos decidir tudo o que sentimos e pensamos. Quem se diz capaz de fazer isso, por favor me ensine!

Ainda bem que a Alice não entende tudo isso, fico pensando como seria se ela tivesse mais idade e fosse capaz de entender o que aconteceu. Como ela teria se sentido?

Ainda bem que existe o amor de mãe, de pai, de avós, padrinhos, amigos, enfim, de todos que tão lindamente contribuem para que os sentimentos transmitidos a Alice sejam os melhores possíveis. Ainda bem existem todas essas pessoas que acreditam em sua capacidade, e que ao longo de sua vida vão contribuir para que os bons momentos superem qualquer mal estar sentido em poucas situações das quais não temos controle.


Imagem da internet


Vivendo e aprendendo.

2 comentários:

  1. Nossa Sara, eu imagino a sua dor. Não passei por situação semelhante, até pq nunca precisei dar maiores explicações para desconhecidos, como vc precisou. Mas vc está certa, o carinho e o amor de todos que rodeiam será muito maior do que qualquer situação desagradável que todos estão sujeitos a passar, mas no caso deles, para nós mães, sempre será mais dolorido. Conte sempre com o nosso carinho. Um bj gde para vcs.

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  2. Oi Sara. Admiro muito você, seu marido e principalmente a Alice. Essa guerreira, um anjinho, uma princesa.
    Meu irmão é autista, e sei um pouquinho do que vc passou. Minha mãe lutou muito para propiciar a ele os melhores tratamentos, procurou os melhores profissionais. Sofreu muito, pois muitas pessoas não entendem e não querem aceitar crianças como ele em colégios de "crianças normais." Mas ela conseguiu, melhor, ele conseguiu. Ele é formado em geografia (licenciatura pela Univille), dirige ( tudo sozinho, Lages, Curitiba...), toca violoncelo na Orquestra da Scar. Mas ele vai ser uma eterna criança, tem suas limitações, tem seus momentos de introspecção, de fúria. Já ouvimos de tudo, minha mãe teve que engolir muitos sapos, mas como vc, ela nunca desistiu, pois uma mãe enfrenta tudo por aqueles que ama. A Alice só vai te dar alegrias!

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